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Elder Ballard falou contra Pokémon Go?

O site anti-mórmon "Vozes Mórmons" escreveu recentemente que o Elder M. Russell Ballard, do Quorum dos Doze Apóstolos, teria desencorajado o uso do aplicativo "Pokémon Go". Entretanto, tal notícia não é verdadeira. Pelo menos, não como foi contada. Explicarei.
O artigo apresenta um trecho de um discurso realizado em uma Conferência Regional nos Estados Unidos, para um conjunto de Estacas (220 Estacas da Área de Salt Lake, Utah, para ser preciso), na primeira quinzena de Setembro. O trecho, traduzido pelo próprio site, é:
“Lembrem-se, o Senhor nos aconselhou a encontrar tempo para ‘aquietar-ser e saber que eu sou Deus’. Agora, alguém descobriu mais uma maneira de manter os membros da família ocupados longe do que mais importa. Existe algo chamado “Pokémon Go”. Eu não entendo isso, e não me pergunte nada sobre isso. Eu só sei que é mais uma coisa que tem os jovens, e um monte de pessoas mais velhas, olhando para baixo em seus smartphones, tentando encontrar um pokémon, eu acho, em vez de olhar para cima para ver as belas criações de mundo maravilhoso de Deus – e a vocês rapazes, ou mesmo alguém que queiram conhecer, namorar e se casar, com quem possam ter um relacionamento no mundo real que resulte em bênçãos eternas.”
O curioso é que no áudio, juntado no próprio artigo, a fala do Élder Ballard não é uma exortação contra uma conduta pecaminosa especifica, mas antes, parece, uma admoestação bem humorada. A fala com os risos seria assim:
“(...) Agora, alguém descobriu mais uma maneira de manter os membros da família ocupados longe do que mais importa. Existe algo chamado “Pokémon Go” (risos). Eu não entendo isso, e não me pergunte nada sobre isso (risos). Eu só sei que é mais uma coisa que tem os jovens, e um monte de pessoas mais velhas, olhando para baixo em seus smartphones, tentando encontrar um pokémon (risos), eu acho, em vez de olhar para cima para ver as belas criações de mundo maravilhoso de Deus (...).”
Ouça o trecho em áudio aqui. Veja o discurso completo aqui.

Evidentemente há uma lição importante neste trecho destacado. Certamente Élder Ballard não desejou apenas contar uma piada. A lição endossada é a de que devemos ser sábios no uso da tecnologia e utilizar nosso tempo apropriadamente. Essa lição já foi explorada em diversas outras ocasiões pelo mesmo apóstolo [1]

Elder Ballard poderia ter usado qualquer outro aplicativo, jogo ou atividade que distrai uma pessoa das coisas mais importantes da vida. Utilizou um dos aplicativos mais populares do momento. Mas a fala dele, especialmente quando vista dentro do contexto de todo o discurso não deduz que Pokémon Go seja, por si só, maléfico. De fato, se usado corretamente Pokemon Go  pode ser uma boa atividade como a família.

O que Elder Ballard parece enfatizar é que mesmo quando se está fisicamente com a família, estamos mentalmente distantes uns dos outros. Ele desejou conscientizar os ouvintes a focarem no mais importante.
Entretanto, o site Vozes Mórmons distorceu propositalmente as palavras de Elder Ballard dizendo que o apóstolo teria proibido os membros de utilizarem o aplicativo. Segundo o site apóstata "(...) de acordo com o Apóstolo Ballard, o jogo é prejudicial para membros da Igreja e é uma ferramenta de Satanás para desviar os filhos de Deus." Isso é claramente uma mentira, pois Elder Ballard não disse isso, nem mesmo insinuou tal coisa.

No final, o artigo cita uma especialista falando sobre os benefícios de "Pokémon Go" - e encerra com a pergunta: "Qual postura acima lhe parece mais saudável, a do Apóstolo Ballard ou a da Dra. Escobar?"

A desonestidade intelectual da afirmação é óbvia - que é quase desnecessário explicar: O pensamento de Elder Ballard não esta em necessária oposição a da Dra. Ana Escobar - a médica, professora da USP, citada no artigo do Vozes Mórmons. Tanto que, embora a especialista fale dos benefícios do jogo, por estimular a atividade física, adverte em seguida (e isso foi propositalmente excluído do site Vozes Mórmons, com a intenção de aparentar um embate entre Elder Ballard e a especialista):
"Por ser um jogo, a gente tem que limitar um pouco (...) Qual o tempo máximo que uma criança, em idade escolar, deve ficar na frente de um eletrônico? Duas horas por dia! Então os pais tem que ficar atentos. Tem hora para jogar o "Pokémon Go", porque tem hora para estudar, tem hora pra comer e tem hora pra dormir, que é super importante. Então gente, tranquilo: jogar o "Pokémon Go" - mas, como tudo na vida, a gente tem que ter uma certa disciplina., tá bom? Então é uma febre que a gente tem que controlar!" (Veja a entrevista em vídeo no site da Globo.com, "Bem-Estar")
Assim, tomemos cuidado com este site maléfico, e com informações sem substância ou distorcida.

Sobre como a Igreja e seus membros tem encarado Pokémon Go, recomendamos estes artigos:



_____________

[1] Outros trechos de ensinamentos do Elder M. Russell Ballard demonstram melhor seu pensamento sobre tecnologia e uso do tempo:

Ser sábios no uso do tempo. "(...) precisamos dividir sensatamente nossos recursos de tempo, renda, energia e atenção. Vou contar-lhes um segredinho. Alguns de vocês já aprenderam isso. Se ainda não, é hora de saberem. Não importa quais sejam as necessidades de sua família ou suas responsabilidades na Igreja, não existe um momento em que podemos dizer “minha tarefa está concluída”. Sempre podemos fazer algo mais. Sempre há outro assunto familiar que necessita de atenção, outra lição a preparar, outra entrevista a realizar, outra reunião a assistir. Temos mesmo é que ser sábios, preservar nossa saúde e seguir o conselho que o Presidente Hinckley nos dá com freqüência: simplesmente “fazer o melhor possível”. O segredo, a meu ver, está em conhecer e compreender nossas próprias capacidades e limitações, e depois criar nosso próprio ritmo, dividindo nosso tempo, nossa atenção e nossos recursos sabiamente para ajudar as pessoas, inclusive a nossa família, em sua jornada rumo à vida eterna." ("Oh! Sede Sábios", A Liahona, Novembro de 2006).

[2] Uso das Tecnologias. "Estou em meu octogésimo ano de vida. Dependendo de como as contas são feitas, isso me torna muito velho. Na verdade, alguns acham que algumas das Autoridades Gerais talvez sejam velhas demais para saber o que se passa em nosso mundo. Permitam-me assegurar-lhes que estamos bem cientes.
Num espaço de aproximadamente 80 anos, vi muitas mudanças. Quando comecei minha missão na Inglaterra, em 1948, o jeito mais comum pelo qual as pessoas recebiam notícias era por meio de jornais e do rádio.
Como o mundo é diferente hoje. Para muitos de vocês, caso leiam jornais, é muito provável que os leiam na Internet. Vivemos no mundo do ciberespaço, de telefones celulares que capturam vídeo, downloads de vídeo e música, redes de relacionamento social, mensagens de texto e blogs, computadores de mão e podcasts.
Este é o mundo do futuro, com invenções inimagináveis — do tipo que surgirão em sua época, assim como surgiram na minha. Como você usará essas maravilhosas invenções? Para ser mais direto, como você as usará para promover o trabalho do Senhor?
Você tem uma grande oportunidade de ser uma poderosa força para o bem na Igreja e no mundo. É verdadeiro o antigo adágio de que “a caneta é mais poderosa que a espada”. Em muitos casos, é com palavras que você realizará as grandes coisas que se dispôs a fazer. E é principalmente a respeito das maneiras de compartilhar essas palavras que eu quero conversar com você.
Desde seu início, A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias tem usado o poder da palavra impressa para disseminar a mensagem do evangelho restaurado pelo mundo. Através dos séculos, a mão do Senhor tem participado disso, ao inspirar pessoas a inventarem ferramentas que facilitam a disseminação do evangelho. A Igreja tem adotado e abraçado essas ferramentas, inclusive os meios impressos, as mídias de difusão e a Internet.
Talvez haja poucas invenções que tenham tido um impacto tão grande no mundo como a prensa tipográfica, inventada pelo inspirado Johannes Gutenberg por volta de 1436. A prensa tipográfica permitiu que o conhecimento, inclusive aquele contido na Bíblia Sagrada, fosse compartilhado mais amplamente que nunca.
(...)
Gostaria de dar outros exemplos de como os membros da Igreja estão usando a Nova Mídia.
Um membro da Igreja que mora no Meio-Oeste dos Estados Unidos faz um esforço coordenado para compartilhar o evangelho todos os dias, pessoalmente. Depois, ele escreve em um blog sobre seus esforços diários em partilhar os ensinamentos do Livro de Mórmon e em dar cartões da amizade a todos os que encontra. Seu esforço de compartilhar o evangelho de modo tão diligente é admirável, e seu esforço extra em escrever sobre isso sem dúvida inspira muitos outros a fazerem o mesmo.
Outros registraram e colocaram seu testemunho sobre a Restauração, os ensinamentos do Livro de Mórmon, e outros assuntos do evangelho em populares sites de compartilhamento de vídeo. Você também pode contar a sua história a não-membros dessa maneira. Use histórias e palavras que eles compreendam. Fale honesta e sinceramente sobre a influência que o evangelho tem exercido em sua vida, sobre como ele o ajudou a vencer fraquezas ou dificuldades e ajudou a definir seus valores. A audiência dessas e de outras ferramentas da Nova Mídia pode muitas vezes ser pequena, mas o efeito cumulativo de milhares de histórias assim pode ser grande. O esforço combinado com certeza compensa os resultados, mesmo que apenas algumas pessoas sejam influenciadas por suas palavras de fé e amor a Deus e a Seu Filho, Jesus Cristo.
A Restauração do evangelho de Jesus Cristo sem dúvida teve uma forte influência em sua vida. Em parte, ela moldou quem você é e como será o seu futuro. Não tenha medo de partilhar a sua história com outras pessoas — suas experiências como seguidor do Senhor Jesus Cristo. Todos nós temos histórias interessantes que influenciaram nossa identidade. Compartilhar essas histórias é um modo de falar com outras pessoas que não gera intimidação. Contar essas histórias pode ajudar a desmistificar a Igreja. Você pode ajudar a vencer concepções errôneas por meio de sua própria esfera de influência, que deve incluir a Internet." ("Compartilhar o Evangelho Usando a Internet", Discurso proferido na Universidade Brigham Young–Havaí, em 15 de dezembro de 2007).

Os líderes da Igreja não vivem numa bolha. “Ouvi dizer que algumas pessoas acham que os líderes da Igreja vivem dentro de uma ‘bolha’. O que eles esquecem é que somos homens e mulheres experientes, que já vivemos em muitos lugares e trabalhamos ao lado de muitas pessoas com diversas histórias de vida. Nossa designação atual na Igreja literalmente nos faz percorrer o mundo inteiro, onde conhecemos líderes políticos, religiosos, empresariais e humanitários. Embora tenhamos visitado [líderes na] Casa Branca, em Washington, D.C., e líderes de nações [e religiões] por todo o mundo, também visitamos as mais humildes [famílias e pessoas] da Terra (…).
Quando ponderarem criteriosamente sobre nossa vida e nosso ministério, é bem provável que concordem que vemos e vivenciamos o mundo de uma maneira que poucos fazem. E compreenderão que vivemos menos em uma ‘bolha’ do que a maioria das pessoas. (…)
Há algo na sabedoria individual e combinada dos [líderes da Igreja] que deve proporcionar algum consolo. Já vivenciamos de tudo, inclusive as consequências de diferentes leis e normas públicas, decepções, tragédias e falecimentos em nossa própria família. Não estamos assim tão distantes de sua vida” (M. Russell Ballard, “Aquietai-vos, e Sabei Que Eu Sou Deus”, devocional do Sistema Educacional da Igreja, 4 de maio de 2014;LDS.org/broadcasts).

Padrão Missionário. Peço-lhes que compreendam o seguinte: o critério estabelecido para o serviço missionário está sendo elevado. Os dias dos missionários do tipo “arrepende-se-e-vai” já se acabaram. Vocês sabem a que me refiro, não sabem, meus jovens irmãos? Alguns rapazes têm a idéia equivocada de que podem adotar um comportamento pecaminoso e depois arrepender-se, quando chegam aos dezoito anos e meio, para poder sair em missão aos dezenove. Embora seja verdade que possam arrepender-se dos pecados, vocês poderão — ou não — ser considerados aptos para servir. É muito melhor manterem-se limpos, puros e valorosos, fazendo coisas simples como: (...)  Limitar o tempo gasto com jogos no computador. A quantidade de pontos acumulados em um minuto não surtirá nenhum efeito em sua capacidade de ser um bom missionário." ("A Melhor de Todas as Gerações de Missionários", A Liahona Novembro de 2002).

Esses ensinamentos, somados a de outros apóstolos provam que a Igreja não é contra a tecnologia, mas ensina que devemos usar bem nosso tempo.

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